O casaco do irmão mais velho
Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

Quando o Rui tinha nove anos, recebeu o casaco do irmão mais velho.
Foi numa manhã de novembro, em Trás-os-Montes, numa cozinha onde o lume já estava aceso antes de toda a gente acordar. O Zé tinha partido na semana anterior para Lisboa, para trabalhar numa oficina de um primo do pai, e deixara o casaco pendurado atrás da porta. A mãe tirou-o do prego, sacudiu-o duas vezes e estendeu-o ao Rui sem dizer nada. Ele percebeu logo que era uma coisa séria.
Era um casaco de lã verde, pesado, com botões de osso e um forro que cheirava a armário e a inverno. Cheirava também um pouco ao Zé, a tabaco escondido e a gasóleo. As mangas chegavam-lhe às pontas dos dedos, por isso a mãe dobrou-as três vezes e disse-lhe que ele havia de crescer para dentro dele.
E o Rui cresceu.
Crescer para dentro
Aprendeu a andar de ombros direitos para que o casaco não lhe caísse. Aprendeu a não correr muito, porque as abas lhe batiam nas pernas. Aprendeu a não brincar na lama, porque aquele casaco tinha de durar. Quando os outros rapazes iam para o ribeiro apanhar rãs, ele ficava na ponte a ver, com as mãos nos bolsos fundos, onde às vezes encontrava coisas do irmão: um botão solto, um bilhete de autocarro, uma moeda antiga que guardou durante anos.
Em casa, o lugar do Zé à mesa ficou vazio durante uns meses. Depois o pai disse ao Rui que se sentasse ali. Ele sentou-se. Começou a ajudar no curral antes da escola, a rachar lenha, a ir à vila tratar de papéis que não percebia. O pai falava pouco, mas uma noite, ao jantar, disse à mãe que o rapaz tinha juízo. O Rui ficou com a colher parada no ar e sentiu uma coisa quente subir-lhe pelo peito.
Na escola, os professores diziam que era um rapaz sério, responsável, maduro para a idade. Ele gostava de ouvir isso. Era bom ser alguém de quem se dizia aquilo. Havia nele uma criança que gostava de cantar alto no caminho para casa, que desenhava barcos nas margens dos cadernos e que se ria até lhe doer a barriga com as asneiras da prima Luísa. Essa criança foi ficando mais calada. Não houve um dia em que ela tivesse desaparecido. Foi só ficando para depois.
Os anos passaram e o casaco foi ficando certo. A mãe desdobrou as mangas uma vez, depois outra. Um dia, já não havia nada para desdobrar.
Depois ficou justo.
As costuras
O Rui fez o liceu, foi para o Porto, estudou contabilidade porque era um curso que dava emprego. Trabalhou numa empresa de transportes durante vinte e dois anos. Casou com a Fernanda, teve duas filhas, comprou um apartamento em Gaia com vista para o rio e um empréstimo que pagava sem nunca falhar uma prestação. Era a pessoa a quem os colegas iam quando havia um problema. Era o filho que ligava à mãe todos os domingos às sete. Era o homem que resolvia.
Um dia, já homem, reparou que não conseguia levantar os braços acima da cabeça sem sentir as costuras a puxar.
Mas continuava a vesti-lo todas as manhãs. Já nem pensava nisso. Saía de casa, abotoava os botões de osso, endireitava os ombros e ia trabalhar. As pessoas continuavam a dizer que ele era sério e responsável. E ele continuava a gostar de ouvir, ainda que o calor no peito fosse cada vez mais curto.
Só às vezes, ao fim do dia, sentia uma espécie de cansaço nos ombros que não sabia de onde vinha. Como se tivesse passado horas a segurar alguma coisa. A Fernanda dizia-lhe que ele andava tenso e massajava-lhe o pescoço no sofá, e ele fechava os olhos e dizia que era do computador. Uma vez, a filha mais nova, a Marta, perguntou-lhe porque é que ele nunca dançava nos casamentos. Ele respondeu que não tinha jeito. Ela olhou para ele com aquela franqueza dos doze anos e disse que ninguém tinha jeito, pai, as pessoas dançam na mesma.
Ele riu-se. Ficou a pensar naquilo a noite toda, sem saber porquê.
O Zé, entretanto, tinha voltado para a aldeia. Abrira uma pequena oficina, andava sempre de fato-macaco e ria-se alto ao telefone. Quando os dois se encontravam no Natal, o Zé dava-lhe palmadas nas costas e chamava-lhe senhor doutor. Uma vez, já tarde, à lareira, disse-lhe meio a brincar que o Rui tinha ficado com o pior do casaco. O Rui não percebeu e o Zé não explicou.
O jardim
Numa tarde de outono, estava no Jardim do Morro à espera da Fernanda, que tinha ido a uma consulta. O céu estava baixo e dourado, e as folhas dos plátanos faziam um barulho seco debaixo dos pés de quem passava. Sentou-se num banco, consultou o telemóvel, voltou a guardá-lo. Não tinha nada para resolver durante vinte minutos, e isso deixava-o estranhamente inquieto.
Foi então que viu um miúdo a correr atrás de pombos. Teria uns cinco anos. Corria de braços abertos, desajeitado, com a camisola a sair das calças e as bochechas vermelhas do frio. Os pombos levantavam voo e voltavam a pousar uns metros à frente, e ele corria outra vez, e outra, como se fosse a primeira. Ria-se sem razão nenhuma. A mãe chamava-o de longe e ele nem ouvia.
O Rui deu por si a sorrir. Lembrou-se do ribeiro. Das rãs que nunca apanhou. Lembrou-se de uma canção que cantava no caminho para casa e de que só sabia a primeira linha. Talvez se possa ficar assim a olhar para uma criança e sentir, algures no corpo, a outra que ficou para depois, à espera.
E, quase sem dar por isso, desabotoou o primeiro botão do casaco.
Respirou um pouco mais fundo. O ar frio entrou-lhe no peito de uma maneira que não reconhecia.
Desabotoou o segundo.
Os ombros desceram um centímetro. Era pouco, e era muito. Sentiu um pequeno medo, também, como quem tira uma coisa que o protegeu durante muito tempo e não sabe ainda o que fica por baixo.
A Fernanda chegou e sentou-se ao lado dele. Olhou-o de lado e perguntou se estava tudo bem. Ele disse que sim. Depois disse que não sabia. E ela, que o conhecia há vinte e cinco anos, pegou-lhe na mão e não perguntou mais nada.
Não o tirou. Ainda não. Mas, pela primeira vez em muitos anos, perguntou-se se aquele casaco tinha alguma vez sido dele. E, enquanto desciam juntos para o rio, deu por si a cantarolar baixinho a primeira linha de uma canção antiga, à espera de que a segunda lhe viesse à memória.
Uma pergunta para ti
Que casaco vestiste para caber na tua família, e quanto dele ainda és tu?
Escreve três qualidades pelas quais as pessoas te reconhecem. Ao lado de cada uma, escreve quando é que começaste a ser assim e quem precisava que fosses. Depois olha para a lista com calma e pergunta-te qual delas escolhias hoje se ninguém estivesse a ver.
Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

