O jardineiro que não media as árvores

Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

Ilustração da história O jardineiro que não media as árvores.

Quando o Duarte começou a trabalhar no jardim grande de uma quinta antiga, perto de Sintra, levava sempre uma fita métrica no bolso.

Tinha vinte e quatro anos e um curso de agronomia acabado com boa média. Gostava de números. Os números davam-lhe uma espécie de chão. Em pequeno, media a altura dele no aro da porta da cozinha todos os meses, e ficava aflito quando o risco novo coincidia com o antigo. A mãe ria-se e dizia que ele ia crescer quando lhe apetecesse. Ele não achava graça.

No jardim, media tudo. A altura das árvores, a largura dos canteiros, o diâmetro dos troncos, o crescimento das roseiras de semana para semana. Apontava os números num caderno de capa preta, com colunas certinhas e datas. Ficava contente quando subiam. Quando não subiam, ficava de mau humor o resto do dia e dormia mal.

O jardim era enorme e velho. Tinha muros de pedra cobertos de hera, um lago com nenúfares e rãs, uma alameda de tílias que no verão cheirava a mel. Tinha também canteiros esquecidos, árvores que ninguém sabia quem tinha plantado, e um velho jardineiro, o senhor Manuel, que trabalhava ali há mais de cinquenta anos e se movia entre as plantas com a lentidão de quem não tem para onde ir.

O caderno de capa preta

O senhor Manuel achava graça à fita métrica. Via o Duarte de joelhos no relvado a medir o espaço entre duas sebes e sorria por baixo do chapéu de palha. Nunca lhe disse para parar. Às vezes até lhe segurava na ponta da fita, quando era preciso medir uma coisa larga.

Almoçavam juntos debaixo da figueira, cada um com a sua marmita. O Duarte falava muito: de pragas, de fertilizantes, de um artigo que tinha lido sobre a rega gota a gota. O velho ouvia, comia devagar e de vez em quando atirava um bocado de pão aos melros. Raramente respondia ao que o Duarte dizia. Respondia a outras coisas, como se tivesse ouvido uma pergunta diferente.

Uma tarde, o Duarte contou-lhe que tinha terminado o namoro com a Sofia. Disse-o depressa, entre duas garfadas, com números pelo meio: dois anos e meio, três meses de discussões, uma viagem a Valência que correu mal. O senhor Manuel não fez perguntas. Ficou um bocado calado e depois disse que a figueira, no ano em que lhe cortaram o ramo grande, não deu figos nenhuns. No ano a seguir deu tantos que se partiram dois ramos com o peso.

O Duarte não percebeu o que aquilo tinha a ver com a Sofia. Mas lembrou-se da frase nessa noite, já deitado, sem saber porquê.

A oliveira que não crescia

Em maio, o Duarte reparou que uma oliveira nova, plantada no inverno no canto do muro sul, não tinha crescido nada em dois meses. Mediu-a três vezes para ter a certeza. Um metro e doze centímetros. Exatamente o mesmo que em março.

Ficou aflito. Sentiu aquele aperto antigo no estômago, o mesmo do aro da porta da cozinha. Foi ter com o senhor Manuel com o caderno aberto e mostrou-lhe as colunas. Disse-lhe que aquela árvore estava mal. Que os números não mentiam. Que se calhar era melhor arrancá-la já e plantar outra, enquanto ainda era primavera.

O velho não respondeu. Pousou a tesoura de podar, limpou as mãos às calças e foi até à oliveira, devagar. Ajoelhou-se ao pé dela, com algum esforço, e enfiou a mão aberta na terra, até ao pulso. Ficou assim um bocado, de olhos meio fechados, como quem ouve uma conversa ao longe.

Depois chamou o Duarte para fazer o mesmo.

O Duarte hesitou. Tinha o caderno numa mão e a fita na outra. Pousou os dois na relva, ajoelhou-se e enfiou os dedos na terra, primeiro com cuidado, depois mais fundo.

A terra estava húmida e fresca, mais fresca do que ele esperava, e cheirava a chuva antiga. Por cima havia uma camada solta, cheia de pequenas raízes de erva. Mais abaixo, os dedos tocaram em qualquer coisa firme e viva. Raízes. Muitas, novas, finas como cordel, a espalharem-se para todos os lados, a agarrar a terra como mãos.

Ficou parado. Sentiu o coração abrandar sem ter decidido isso. O sol batia-lhe na nuca e um melro cantava em cima do muro. E talvez, enquanto lês, possas lembrar-te de uma altura da tua vida em que também pareceu que nada crescia, e de tudo o que estava a acontecer por baixo sem que ninguém medisse.

Medir para cuidar

O senhor Manuel explicou-lhe, sem pressa, que há alturas em que as árvores crescem para cima e alturas em que crescem para baixo. Que uma oliveira acabada de mudar de terra primeiro precisa de saber onde está. Quem só olha para a altura acha que estão paradas.

Disse-lhe que a fita métrica servia para perceber como estava a árvore. Não servia para lhe dar nota.

E disse-lhe também, enquanto se levantava com uma mão apoiada no joelho, que o jardineiro mede para saber onde pôr água, onde deixar entrar mais sol, onde tirar uma erva que está a roubar espaço. Mede para escutar a planta com mais atenção. Quando uma árvore passa um mês sem crescer, costuma estar a dizer alguma coisa, e o trabalho do jardineiro é ouvir o quê.

O Duarte ficou ainda uns minutos de joelhos. Quando se levantou, tinha terra debaixo das unhas e as calças molhadas. Apanhou o caderno da relva e olhou para as colunas certinhas de números. Pareceram-lhe diferentes. Continuavam certas, e ao mesmo tempo contavam só uma parte da história.

Continuou a usar a fita métrica. Continuou a apontar os números, até com mais cuidado do que antes. Mas, a partir desse dia, antes de olhar para eles, ajoelhava-se e punha a mão na terra. Às vezes escrevia ao lado dos números uma palavra: seca, fresca, compacta, viva. Às vezes não escrevia nada e ficava só a ouvir.

Houve semanas em que se esqueceu e voltou a correr para os números, sobretudo quando o administrador da quinta aparecia a perguntar porque é que as camélias estavam tão fracas. Nesses dias sentia outra vez o aro da porta da cozinha a apertar-lhe o peito. O senhor Manuel não dizia nada. Passava por ele, tocava-lhe no ombro e seguia para o lago. Bastava isso para o Duarte se lembrar de pousar o caderno e ir pôr a mão na terra das camélias, onde descobriu um cano rachado que as andava a afogar.

Em outubro, a oliveira do muro sul cresceu dezoito centímetros num mês. O Duarte mediu, apontou e sorriu, e reparou que já não sentia aquele aperto no estômago, nem quando os números subiam nem quando ficavam iguais.

Nesse inverno, ligou à Sofia para lhe devolver uns livros. Falaram mais tempo do que esperavam. Ele não sabia em que ia dar aquilo, e pela primeira vez não teve vontade de medir.

E começou a ver crescer, no jardim e noutros lados, coisas que não se medem em centímetros.

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