O faroleiro

Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

Ilustração da história O faroleiro.

O senhor Alberto foi faroleiro durante quarenta e dois anos, num cabo de pedra da costa alentejana onde o vento nunca parava.

O farol era branco, com uma faixa vermelha a meio, e de longe parecia mais pequeno do que era. Lá dentro havia cento e doze degraus de ferro em caracol, que ressoavam a cada passo como um sino abafado. Lá em cima, a lanterna: uma lente enorme, feita de anéis de vidro, que rodava em cima de um banho de mercúrio e espalhava a luz pelo mar em braços compridos.

O trabalho era sempre igual. Subir os degraus ao fim da tarde. Limpar as lentes com um pano de camurça, devagar, sem deixar dedadas. Verificar a lâmpada e a de reserva. Dar corda à máquina, nos primeiros anos, e mais tarde vigiar os quadros elétricos. Acender a luz. Ficar acordado até de manhã, a ver se ela continuava a rodar ao ritmo certo. Escrever no livro de registo o vento, a visibilidade, a hora. Descer. Dormir mal com o sol a entrar pelas frestas. Voltar a subir.

A mulher, a Glória, vivia com ele na casa ao pé do farol. Criaram ali duas filhas, que aprenderam a adormecer com a luz a passar pela janela do quarto a cada quinze segundos. Quando eram pequenas, contavam os clarões como quem conta carneiros. Quando cresceram, foram estudar para Lisboa e deixaram de gostar de dormir com as cortinas abertas.

As noites em que nada acontecia

Houve anos em que o senhor Alberto achou aquilo a coisa mais aborrecida do mundo. Noites inteiras sem acontecer nada. Só o mar a bater lá em baixo, o assobio do vento nas grades da varanda, o zumbido da maquinaria e a luz a passar por cima da água escura, sempre igual, sempre à mesma cadência.

Lia jornais velhos. Fazia palavras cruzadas até as saber de cor. Ouvia o rádio baixinho, os relatos de futebol, os programas de discos pedidos que chegavam de madrugada com dedicatórias para pessoas que ele nunca ia conhecer. Às vezes adormecia sentado e acordava sobressaltado, com o coração aos saltos, a olhar para a lente para ver se ainda rodava. Rodava sempre.

Pensou muitas vezes em desistir. Os barcos tinham agora rádios, sondas, mapas eletrónicos que mostravam a costa melhor do que ele a conhecia. Havia outros faróis ao longo da costa. Diziam-lhe na cidade que dentro de pouco tempo aquilo ia ser tudo automático. Ninguém ia reparar se a luz se apagasse uma noite. Ninguém ia reparar se fosse ele a apagar-se.

A Glória, quando o via assim, não dizia nada. Subia ao fim da noite com uma cafeteira e duas canecas e sentava-se ao lado dele na varanda, embrulhada num casaco grosso. Ficavam os dois a ver o mar. Às vezes era o suficiente. Outras vezes não era.

A noite do motor parado

Numa noite de fevereiro, já com cinquenta e tal anos, houve uma tempestade como poucas. O vento arrancou uma telha da casa e fez as janelas da lanterna vibrar. A chuva vinha de lado, em lençóis. Ele passou a noite lá em cima, de olhos colados à lente, a limpar o vidro por dentro sempre que o vapor o embaciava.

Já perto das cinco ouviu bater à porta lá em baixo. Uma pancada, depois outra, mais fraca. Desceu os cento e doze degraus quase a correr, com a lanterna de mão.

Era um pescador encharcado, de olhos vermelhos, com um miúdo de uns dez anos pela mão. O miúdo tremia tanto que lhe batiam os dentes. Tinham saído de Sines ao fim da tarde, para ir às redes, e perderam o motor ao largo. O rádio molhou-se e calou-se. Andaram horas à deriva, no escuro, com o mar a crescer e sem saber onde estavam.

A Glória acordou e acendeu o fogão. Embrulharam o miúdo em mantas, deram-lhe leite quente com açúcar. O pescador não se queria sentar. Ficou de pé no meio da cozinha, a pingar, e contou que, quando já tinha deixado de acreditar, quando já tinha começado a pensar no que ia dizer à mulher se chegasse a ter essa oportunidade, viu a luz. Primeiro uma vez. Depois outra. Sempre ao mesmo ritmo. Contou os segundos entre um clarão e o outro, como lhe tinha ensinado o pai, e soube que farol era. Remou na direção dela com um remo partido e um balde, o miúdo a tirar água, até sentir a pedra da enseada debaixo do barco.

Depois pegou nas mãos do senhor Alberto, com força, as mãos dele ainda geladas. Não disse obrigado. Disse só: estava lá.

Para quem se acende uma luz

Nessa noite, ou o que restava dela, o senhor Alberto não dormiu. Subiu outra vez e ficou na varanda do farol, de casaco, com o vento a acalmar e o céu a abrir-se devagar a nascente. Ficou a ver a luz passar sobre o mar ainda escuro, braço atrás de braço.

Pensou em todas as noites em que tinha subido os degraus sem saber para quê. Nas palavras cruzadas, nos discos pedidos, nas vezes em que adormeceu na cadeira. Pensou que talvez houvesse outros barcos. Outras noites em que alguém, lá longe, contou os segundos entre dois clarões e corrigiu o rumo sem nunca bater à porta de ninguém. Pessoas que ele nunca ia conhecer, e que nunca o iam conhecer a ele.

Sentiu uma coisa a assentar-lhe no peito, devagar, como quando o barco encosta ao cais e o corpo ainda balança um pouco antes de perceber que está em terra.

Quando o sol nasceu, desceu e encontrou o miúdo acordado na cozinha, de mantas pelos ombros, a olhar pela janela para o farol. Perguntou-lhe se a luz ficava acesa todas as noites, mesmo quando não havia barcos. O senhor Alberto disse que sim. O miúdo pensou um bocado e disse que então era como a mãe dele, que deixava a luz do corredor acesa até ele chegar, mesmo quando ele ia dormir a casa dos primos e ela sabia que ele não vinha.

Continuou a ser faroleiro até se reformar, quando o farol passou a ser automático e lhe pediram que ensinasse um técnico novo a ler o livro de registo. As noites continuaram longas. O trabalho continuou igual, degrau a degrau, lente a lente.

Mas nunca mais o achou aborrecido. Havia noites difíceis, claro, noites de cansaço e de saudades das filhas. Só que já não eram noites vazias.

Passou a subir os degraus de outra maneira. Como quem sobe para acender uma coisa que alguém, algures, pode estar a procurar. E às vezes, ao limpar a lente, dava por si a pensar em ti, ou em alguém como tu, que talvez nesse mesmo instante estivesse a fazer uma coisa pequena e repetida sem saber quem a ia ver.

Anos mais tarde, numa festa da aldeia, um homem de trinta e poucos anos aproximou-se dele com uma criança ao colo. Perguntou-lhe se ainda se lembrava de uma noite de fevereiro. O senhor Alberto olhou para ele muito tempo antes de responder.

Uma pergunta para ti

Para quem é que a tua luz está acesa, mesmo nas noites em que não vês ninguém?

Pensa numa tarefa que fazes todos os dias e que te parece vazia. Escreve uma frase sobre quem beneficia dela, mesmo que nunca te agradeça. Amanhã, faz essa tarefa a pensar nessa pessoa e repara se alguma coisa muda no teu corpo enquanto a fazes.

Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

Continua a explorar.

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