A casa das janelas tapadas
Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

A dona Amélia tinha uma casa bonita em Lisboa, numa rua estreita da Madragoa, com janelas altas viradas para o rio.
Era uma casa de três andares, estreita e funda, com azulejos verdes na fachada e uma escada de madeira que rangia no quarto degrau. Tinha sido dos pais dela, e antes disso dos avós. Quando era nova, a dona Amélia gostava de acordar cedo só para ver a luz entrar pelas janelas do quarto de cima. Primeiro cor-de-rosa, depois dourada, depois branca, a deslizar pelo soalho até chegar à cama. O marido, o senhor Fernando, dizia que ela tinha casado com ele por causa da casa. Ela ria-se e não desmentia.
O senhor Fernando morreu num outono. E nesse inverno, numa noite de temporal, partiu-se um vidro da sala com o vento e entrou chuva por cima do sofá.
Um pano de cada vez
Ela tapou essa janela com um pano grosso, de veludo castanho, que tinha guardado num baú. Pregou-o à moldura com pioneses, sozinha, em cima de uma cadeira, para não voltar a acontecer. O vidro foi substituído duas semanas depois. O pano ficou. Fazia sentido. Os temporais voltam sempre.
Na primavera, uns miúdos jogaram à bola na rua e uma bola bateu noutra janela. Não partiu, mas o estrondo foi tal que ela deixou cair a chávena. Ficou a tremer na cozinha um bom bocado, com os cacos aos pés. Tapou também essa. Por precaução.
Depois houve um verão de calor, daqueles em que o ar da cidade parece pesar, e a luz do sol desbotava os sofás e o tapete de Arraiolos que tinha sido da mãe. Tapou mais duas. A seguir, a vizinha do lado, a dona Lurdes, comentou à porta da mercearia que se via tudo para dentro da casa dela, e a dona Amélia sentiu-se estranhamente exposta, como se andasse nua pela rua. Nessa semana tapou as que davam para a rua.
Cada pano tinha uma razão. Todas as razões eram boas. Se alguém lhe perguntasse, e às vezes perguntavam, ela sabia explicar cada uma com paciência e clareza.
Ao fim de uns anos, a casa estava quase às escuras.
A dona Amélia andava pelos corredores de luz acesa ao meio-dia. Habituou-se ao zumbido baixo das lâmpadas e à cor amarelada que deixavam nas paredes. As plantas tinham morrido uma a uma, primeiro a avenca, depois os gerânios, por fim a sardinheira que o Fernando tinha trazido de Óbidos. Ela tinha deixado de comprar outras. Dizia que não tinha jeito.
As visitas vinham cada vez menos. A irmã, que vivia em Setúbal, aparecia no Natal e saía antes do lanche. Dizia que a casa a deixava com dores de cabeça. As amigas do grupo da igreja deixaram de lá ir às quartas. A dona Amélia pensava que as pessoas é que tinham mudado, que hoje em dia ninguém tinha tempo para nada.
Sentia-se protegida. Dentro de casa nada lhe batia, nada lhe entrava, ninguém a via.
Também se sentia muito cansada, sem perceber porquê. Dormia muitas horas e acordava com o corpo pesado. Subia ao quarto de cima cada vez menos, porque a escada lhe parecia mais comprida. Passava as tardes na sala, numa poltrona, com a televisão ligada sem som, a ouvir o relógio da cozinha. Às vezes, ao fim do dia, ficava muito quieta e tinha a impressão de que a casa respirava devagar à volta dela, como um bicho a dormir.
O manjericão
Numa manhã de domingo de junho, perto dos Santos, a neta veio visitá-la. Chamava-se Carolina, tinha dezassete anos e vinha sozinha pela primeira vez, de autocarro, desde Almada. Trazia um vaso de manjericão comprado numa banca do arraial, com um cravo de papel espetado na terra e uma quadra escrita à mão num papelinho.
Deu um beijo à avó, olhou à volta e ficou um segundo calada. Depois disse que o manjericão precisava de sol e foi procurar um sítio onde o pôr.
A dona Amélia ouviu-a andar pela sala, pela cozinha, pelo corredor. Ouviu-a abrir portas e fechá-las. Ouviu-a subir a escada, o quarto degrau a ranger. Pensou em dizer-lhe que não havia sol nenhum naquela casa, mas não disse. Ficou a ouvir os passos lá em cima.
A Carolina não encontrou sítio nenhum. Então, sem pedir licença, foi até à janela do quarto de cima e puxou o pano.
Os pioneses saltaram com um estalo seco. O veludo caiu ao chão, pesado, a levantar pó.
A luz entrou de repente.
Encheu o quarto, desceu pelo corredor, escorreu pela escada até à sala. A dona Amélia viu-a chegar aos pés da poltrona antes de perceber o que era. Levantou-se depressa, mais depressa do que se levantava há anos, e subiu a escada com a mão no corrimão, já com a frase pronta na boca. Ia ralhar.
Parou à porta do quarto, a meio da frase.
Tinha-se esquecido de que a casa dela tinha aquela cor. O soalho era de um castanho quente, cor de mel. As paredes, que ela julgava cinzentas, eram brancas com um tom de areia. Na moldura da janela havia ainda uma marca a lápis, quase apagada, onde o Fernando tinha medido a altura da filha quando ela era pequena.
A luz a mudar
Ficou ali, de olhos meio fechados, a sentir o sol na cara. Era morno e insistente, e entrava-lhe pela pele de uma maneira que ela não sabia que lhe fazia falta. Sentiu os ombros a descer. Sentiu, no meio do peito, uma coisa a desatar-se devagar, e não soube se tinha vontade de rir ou de chorar. Acabou por não fazer nenhuma das duas. Respirou.
Lá fora ouvia-se o rio, as gaivotas, alguém a chamar por um cão. Sons que estiveram sempre ali, do outro lado do veludo.
A Carolina pousou o manjericão no parapeito e ficou quieta, a olhar para a avó, um pouco assustada com o que tinha feito.
A dona Amélia não disse nada. Pôs-lhe a mão no braço.
O pano continuava ali, dobrado no chão, ao pé da cama. Podia voltar a pendurá-lo quando quisesse. Os pioneses estavam espalhados no soalho, a brilhar ao sol como moedas pequenas. Nenhuma das duas os apanhou.
Desceram juntas e almoçaram na cozinha, de luz apagada pela primeira vez em muito tempo, porque a claridade que vinha da escada chegava.
A Carolina foi-se embora ao fim da tarde. Prometeu voltar no domingo seguinte.
O manjericão ficou na janela. E, nessa tarde, já sozinha, a dona Amélia subiu outra vez ao quarto, devagar, degrau a degrau, só para ver a luz a mudar. Sentou-se na beira da cama. Ficou até o sol se pôr sobre o rio e o quarto ficar cor-de-rosa, como quando era nova.
Não tirou mais nenhum pano nessa semana. Talvez tu saibas como é: há casas que se fecham muito depressa e se abrem muito devagar.
Mas na quarta-feira, ao passar pela sala, parou em frente à janela do temporal. Ficou a olhar para o veludo castanho, e para o fio de luz que espreitava pela borda, onde um pionés se tinha soltado.
Uma pergunta para ti
Que janelas tapaste por boas razões, e quanta luz deixou de entrar?
Escolhe uma coisa que deixaste de fazer por precaução, como um convite, um passeio ou uma conversa. Esta semana, faz uma versão pequena dela, só uma, e repara no que sentes no corpo depois. Uma janela de cada vez.
Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

