As duas margens
Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

O Joaquim foi barqueiro no Douro durante trinta anos.
O barco era de madeira pintada de azul e branco, com o nome da mãe escrito à mão na proa, Rosa, em letras que ele retocava todas as primaveras. O cais de pedra ficava num sítio onde o rio se alarga e abranda, entre socalcos de vinha que no outono ficam cor de ferrugem. A ponte velha, mais acima, já não aguentava carros desde os anos setenta. Por isso havia o barco. E havia o Joaquim.
Todas as manhãs atravessava gente de uma margem para a outra. Trabalhadores das vindimas, mulheres com cestos, crianças a caminho da escola, o carteiro de bicicleta ao colo, de vez em quando um turista que queria fotografar a ponte. Ele remava, cobrava, voltava, e recomeçava. Conhecia o rio pela cor. Sabia quando vinha cheia pelo cheiro a terra que subia da água, e sabia em que pedra os peixes se escondiam no verão.
A casa do limoeiro
Do lado de lá do rio havia uma casa branca com um limoeiro à porta. Ficava um pouco acima do cais, ao cimo de um caminho de terra ladeado de giestas. Ele via-a todos os dias. Em pequeno, quando ia no barco do pai, tinha prometido a si mesmo que um dia viveria ali. Gostava da forma como a luz da tarde batia naquela parede e a deixava quase dourada, e da maneira como o limoeiro parecia estar sempre carregado, mesmo no inverno.
Nunca o disse a ninguém. Era daquelas promessas que se guardam tão fundo que deixam de parecer promessas e passam a ser paisagem.
A casa esteve à venda duas vezes. A primeira quando o Joaquim tinha vinte e oito anos. Havia o barco para pagar ao banco e um filho a caminho. Pensou que ainda não era altura. A segunda quando tinha quarenta e um. A mãe estava doente, a Graça, a mulher, dizia que era uma loucura mudar de margem com a vida já feita, e o inverno vinha aí, carregado de chuva. Pensou outra vez que ainda não era altura. Das duas vezes, sentiu um alívio estranho quando a placa de vende-se desapareceu da janela. E das duas vezes, sem saber porquê, dormiu mal durante semanas.
Os anos foram passando como passa o rio. Sem pressa e sem parar.
O filho foi para França. A mãe morreu numa primavera em que os limoeiros dos dois lados do rio floriram ao mesmo tempo. A Graça partiu também, de repente, numa noite de agosto, e a casa do lado de cá ficou grande demais. O Joaquim continuou a remar. Remar era a única coisa que não precisava de ser decidida. O rio estava sempre lá, a margem de lá estava sempre lá, e ele ia e voltava como quem respira.
Às vezes, a meio da travessia, parava os remos um instante e deixava o barco andar sozinho com a corrente. Olhava para a casa branca. Depois voltava a remar.
A pergunta
Numa manhã de nevoeiro, já com as mãos mais lentas e os joelhos a queixarem-se do frio, levou uma rapariga que ia visitar a avó. Teria uns vinte anos, cabelo curto, uma mochila com um autocolante de uma banda que ele não conhecia. O nevoeiro estava tão cerrado que só se via o rio à volta do barco, como se o mundo tivesse ficado reduzido àqueles poucos metros de água parada.
A meio caminho, o nevoeiro abriu-se um pouco, e a casa branca apareceu lá em cima, com o limoeiro escuro à frente. A rapariga olhou para ela e disse, distraída, que aquela era a casa mais bonita do rio. Que a avó lhe contava que estava vazia há anos e que um dia ia cair.
O Joaquim não respondeu. Sentiu as mãos apertarem os remos.
E depois ela perguntou-lhe uma coisa que ninguém nunca lhe tinha perguntado.
Perguntou-lhe quantas vezes já tinha atravessado o rio.
Fê-lo com curiosidade simples, a mesma com que se pergunta a idade a um velho ou o nome a um cão. O Joaquim fez as contas de olhos baixos, os lábios a mexer. Dez, quinze travessias por dia. Trinta anos. Dava qualquer coisa como cem mil.
Disse o número em voz alta. A rapariga assobiou baixinho, impressionada, e voltou a olhar para o telemóvel.
Mas o número ficou no barco. Cem mil vezes tinha chegado à outra margem. Cem mil vezes tinha encostado a proa àquele cais, tinha estendido a mão às pessoas para as ajudar a sair, tinha visto o caminho de terra a subir entre as giestas. E nem uma vez tinha subido o caminho até à casa do limoeiro.
Sentiu uma coisa no corpo que não conhecia bem. Não era tristeza, ou não só. Era mais parecido com a sensação de acordar num quarto e não saber durante um segundo onde se está.
O caminho de terra
Quando a rapariga desceu e desapareceu no nevoeiro, ele ficou parado, com o remo nas mãos e o barco a balançar devagar contra a pedra. Ouvia a água a bater no casco. Ouvia, lá em cima, um galo atrasado. Do lado de cá, alguém podia estar à espera dele no cais. Talvez estivesse. Pela primeira vez em trinta anos, o Joaquim não foi ver.
Pensou em todas as razões que tivera para não subir. Eram boas razões, todas elas. Tinham-no protegido de alguma coisa, embora ele já não soubesse bem de quê. E pensou também que uma pessoa pode viver muito tempo assim, a tocar na margem do que deseja, tão perto que quase lhe sente o cheiro, e voltar sempre para trás antes de lhe dar um nome.
Depois amarrou o barco ao cais do lado de lá, com um nó lento, verificando-o duas vezes como fazia sempre. Subiu o caminho de terra, passo a passo. As giestas estavam molhadas e roçavam-lhe as calças. Os joelhos doíam. A meio do caminho parou para respirar e olhou para baixo: o barco azul e branco parecia pequeno, quase um brinquedo, e o rio continuava a passar, sem pressa e sem parar.
O nevoeiro foi levantando à medida que subia. Quando chegou ao limoeiro, o sol já tocava na parede branca. Havia limões caídos na terra, alguns podres, outros ainda inteiros e perfumados. Ele apanhou um e ficou com ele na mão, a sentir-lhe o frio e o cheiro.
A porta da casa estava fechada. As portadas também. Não sabia de quem era agora, nem se estava à venda, nem o que ia fazer quando lá chegasse. Talvez só se sentasse no degrau. Talvez batesse à porta da vizinha e perguntasse. Talvez nada.
Só sabia que, desta vez, não ia voltar logo para trás.
Uma pergunta para ti
Quantas vezes já chegaste perto da tua outra margem sem subires o caminho?
Pensa numa coisa que desejas há muito tempo. Escreve a menor ação possível que te aproxime dela e faz essa ação nas próximas 48 horas, mesmo que pareça pequena demais. Pode ser só subir metade do caminho e olhar.
Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

