O barómetro da avó

Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

Ilustração da história O barómetro da avó.

Na parede da cozinha da minha avó havia um barómetro.

A casa ficava em Ílhavo, a duas ruas da ria, e tinha aquele cheiro que as casas antigas junto à água guardam nas paredes: sal, pão, lixívia e qualquer coisa de madeira molhada que nunca chegava a secar por completo. A cozinha era pequena, de azulejo branco até meio da parede e cal por cima, com uma mesa de tampo de mármore onde eu fazia os trabalhos de casa nas férias de verão. O barómetro estava pendurado ao lado da janela, um pouco torto, como se alguém o tivesse acertado à pressa muitos anos antes e depois ninguém tivesse tido coragem de lhe mexer.

Era redondo, de latão e madeira escura, com uma agulha preta e outra dourada, e umas palavras antigas escritas em letra bonita à volta do mostrador: tempestade, chuva, variável, bom tempo, muito seco. Eu achava que era um relógio avariado. Durante um verão inteiro, convenci-me de que a agulha dourada marcava as horas de um país onde o tempo andava mais devagar.

Todas as manhãs, antes do café, a minha avó Glória parava à frente dele. Limpava as mãos ao avental, mesmo quando não estavam sujas, e dava-lhe dois toquezinhos no vidro com a ponta do dedo. A agulha estremecia, mexia-se um bocadinho, às vezes para um lado, às vezes para o outro, e ela ficava a olhar, calada, com a cabeça um pouco inclinada, como quem escuta alguém a falar baixinho noutra divisão.

Só depois ia acender o fogão.

A agulha e a janela

Um dia, devia ter uns dez anos, perguntei-lhe para que servia aquilo, se bastava olhar pela janela.

Ela riu-se. Tinha um riso curto, que lhe saía mais pelo nariz do que pela boca. Disse-me que a janela mostra o tempo que está. O barómetro mostra o tempo que vem.

Puxou uma cadeira e sentou-me ao lado dela, de frente para a parede. Explicou-me que, quando a agulha começa a descer, ainda pode estar sol lá fora. O céu ainda está azul, as pessoas ainda andam de manga curta na marginal, os homens ainda estendem as redes no cais. Mas a pressão já está a mudar, lá em cima, onde ninguém vê. E quem sabe ler isso recolhe a roupa antes da chuva, fecha as portadas antes do vento e não é apanhado de surpresa.

Contou-me que o meu avô, que andou ao bacalhau muitos anos, nunca saía para o mar sem perguntar à mulher o que dizia a agulha. Os outros pescadores riam-se dele. Diziam que confiava mais num prato de latão do que nos olhos. Ele encolhia os ombros e ia. E voltava.

Depois a minha avó disse uma coisa que eu só percebi muitos anos mais tarde. Disse que as pessoas também têm um barómetro. Só que a maior parte nunca lhe dá os dois toquezinhos.

Eu não percebi. Lembro-me de olhar para o peito dela, à procura de um mostrador.

Ela continuou, sem pressa, a descascar uma batata que tinha ido buscar ao alguidar. Disse que conhecia muita gente que andava com o céu azul por fora e a agulha a descer por dentro. Que dormiam pior e não sabiam porquê. Que se irritavam com coisas pequenas, com o barulho de uma colher, com o tom de voz de um filho. Que deixavam de ter vontade de ir ao café ao domingo, de telefonar à irmã, de estar com quem gostavam. E que diziam a toda a gente que estava tudo bem, porque olhavam pela janela e ainda não estava a chover.

Até que um dia chove, disse ela. E parece que veio do nada.

Pousou a batata na tábua e ficou um bocado calada. Eu soube, sem saber como, que ela estava a pensar em alguém concreto. Nunca lhe perguntei quem.

O tempo que veio

Cresci, saí de Ílhavo, fui estudar para Coimbra e depois trabalhar para Lisboa. Esqueci-me do barómetro como se esquecem as coisas que estiveram sempre no mesmo sítio. A minha avó envelheceu devagar e depois depressa. Morreu num inverno de muito vento, e a minha mãe, ao arrumar a casa, perguntou-me se eu queria alguma coisa. Eu pedi o barómetro sem pensar. Só no comboio, com ele embrulhado num pano de cozinha em cima dos joelhos, é que me perguntei porquê.

Pendurei-o na minha cozinha, num terceiro andar em Arroios, ao lado da janela que dá para um saguão. Ficou também um pouco torto. Deixei-o assim.

Durante uns anos, foi só um objeto bonito. As visitas perguntavam o que era e eu contava a história da minha avó em duas frases, como se conta uma anedota de família.

Houve um ano mais difícil. Não aconteceu nada de especial, e talvez por isso tenha demorado tanto a dar por ele. Eu trabalhava muito e trabalhava bem. Os colegas diziam que eu estava sempre disponível. Acordava às quatro da manhã com o coração acelerado e dizia a mim própria que era do café. Comecei a responder mal ao Pedro por causa da loiça. Deixei de ir aos jantares das quintas-feiras com as minhas amigas, primeiro por cansaço, depois por hábito. Quando a minha mãe ligava, eu dizia que estava tudo ótimo, e quase acreditava.

Lá fora, o céu estava azul. Eu tinha um bom emprego, uma casa com luz, um homem que gostava de mim.

Numa manhã de março, à espera de que a água fervesse, dei por mim parada à frente do barómetro. Não sei quanto tempo fiquei ali. Lembro-me do assobio da chaleira ao fundo e de não me mexer.

Levantei a mão e dei-lhe dois toquezinhos no vidro, como ela fazia.

A agulha estremeceu e desceu um pouco.

Era só o tempo lá fora, claro. Ia chover à tarde em Lisboa, e choveu. Mas naquele momento senti uma coisa a apertar-me por baixo das costelas, uma espécie de reconhecimento, e as lágrimas vieram antes de eu perceber de onde vinham. Fiquei ali a chorar na cozinha, com a chaleira a apitar, e a única coisa em que conseguia pensar era na minha avó a pousar a batata na tábua e a ficar calada.

Eu era aquela pessoa em quem ela tinha pensado. Ou podia ter sido.

Dois toquezinhos

Não mudei de vida nessa manhã. Desliguei o fogão, fiz o café, fui trabalhar. Mas à noite liguei à Marta e disse-lhe que na quinta-feira ia ao jantar. E, quando o Pedro chegou e eu senti a irritação a subir por causa de um copo fora do sítio, reparei nela a subir. Só isso. Reparei, como quem vê a agulha mexer-se.

Há manhãs em que me esqueço. Passam semanas sem eu olhar para a parede. E há manhãs em que, antes do café, ainda paro à frente dele. Limpo as mãos às calças, mesmo quando não estão sujas. Dou-lhe dois toquezinhos no vidro.

E aproveito para me perguntar, também a mim, como é que dormi, o que me irritou ontem, de quem tive saudades e não liguei. Que tempo é que vem aí.

Às vezes a resposta é bom tempo. Às vezes é variável. Já aprendi que a agulha não me pede que faça nada de imediato. Pede só que olhe para ela.

Talvez tu também tenhas, algures, uma parede onde nunca reparaste que havia um mostrador. E talvez, enquanto lês isto, a tua mão já saiba onde dar os dois toques.

Ontem a minha sobrinha, que tem nove anos, perguntou-me se aquilo era um relógio avariado.

Puxei uma cadeira e sentei-a ao meu lado.

Uma pergunta para ti

Se hoje desses dois toquezinhos no teu barómetro, para onde apontava a agulha?

Durante sete dias, ao acordar e antes do café, dá a ti próprio uma nota de energia, de serenidade e de alegria, com uma só palavra para cada. Escreve-as num papel colado no frigorífico ou no espelho. No fim da semana, olha para a direção em que a agulha se mexeu.

Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

Continua a explorar.

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