O cão atrás do portão

Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

Ilustração da história O cão atrás do portão.

Todas as manhãs, a Luísa saía de casa para o trabalho às oito e dez. Fazia sempre o mesmo percurso. Descia os três degraus do prédio, contornava o quarteirão, passava pela padaria da esquina, atravessava duas passadeiras e seguia caminho até à paragem do autocarro.

Era um percurso mais longo, mas ela nunca pensava nisso. Conhecia cada rua, cada montra, cada curva. Sabia que o senhor da papelaria abria a porta de ferro às oito e um quarto, com um estrondo que fazia levantar os pombos. Sabia que na padaria o pão de mistura saía às oito e vinte e que, se chegasse um minuto depois, ainda vinha quente dentro do saco de papel. Era assim que fazia há tantos anos que já nem se lembrava de ter escolhido aquele caminho.

Às vezes, ao chegar à paragem, o autocarro já tinha passado. Ficava ali a olhar para o relógio com uma pressa pequena no estômago e pensava que tinha de sair mais cedo no dia seguinte. Nunca lhe ocorreu que havia outra rua, mais curta, logo ao virar da porta de casa.

O que ela não sabia era que, muitos anos antes, tudo tinha começado com um susto.

A manhã do portão

Tinha vinte e poucos anos e acabava de se mudar para o bairro. Numa manhã em que ia atrasada, de cabelo ainda molhado e com o casaco por abotoar, desceu a rua estreita que levava direita à paragem. A meio dessa rua havia um portão de ferro verde, alto, com a tinta a cair aos bocados. Quando passou por ele, um cão ladrou-lhe inesperadamente do outro lado, tão perto e com tanta força que ela sentiu o ladrar no corpo antes de o ouvir.

Assustou-se tanto que deu um salto para o meio da estrada. Um carro buzinou. Ela mudou de passeio, com o coração aos saltos, e seguiu por outra rua sem olhar para trás. Nesse dia chegou ao trabalho com as mãos frias e passou a manhã a pensar que podia ter sido atropelada.

No dia seguinte, ao sair de casa, os pés levaram-na para a esquerda em vez da direita. Ela deixou-os ir. Contornou o quarteirão. E no outro dia também.

Os dias transformaram-se em semanas. As semanas em meses. Os meses em anos.

Mudou de emprego, casou-se, separou-se, voltou a viver sozinha no mesmo prédio. A mãe morreu num inverno. A padaria mudou de dono duas vezes. Ela foi ficando com alguns cabelos brancos que deixou ficar. E todas as manhãs, às oito e dez, os pés continuavam a virar para a esquerda.

Com o tempo, esqueceu-se do cão. Esqueceu-se do susto. Esqueceu-se até de que existia outro caminho.

Mas continuou a dar a volta.

Havia outras voltas na vida dela, se alguém tivesse reparado. Não ia a festas onde conhecesse pouca gente. Desligava o telefone quando o assunto começava a apertar. Dizia que preferia assim, e preferia. Uma amiga, a Teresa, uma vez disse-lhe a rir que ela andava pela vida como quem anda numa casa às escuras, sempre de mão na parede. A Luísa riu-se também e mudou de conversa.

Entretanto, a vida naquela rua estreita tinha mudado. O cão, um pastor alemão velho que afinal só sabia ladrar, tinha morrido havia muito. O dono vendera a casa. O velho portão verde tinha desaparecido e, no seu lugar, abrira uma pequena florista. Todas as manhãs, o sol entrava a direito pela rua, iluminava a montra e espalhava uma luz quente sobre os vasos de flores, os baldes de zinco e o passeio ainda molhado da rega.

Mas ela não sabia de nada disso. Continuava a viver como se aquele cão ainda estivesse atrás do portão.

A padaria em obras

Até que, numa segunda-feira de março, a padaria habitual amanheceu fechada para obras. Havia um tapume de madeira à frente da porta, um papel colado com fita-cola a pedir desculpa pelo incómodo, e o passeio todo ocupado por um andaime. Do lado de lá, ouvia-se um berbequim. Não havia por onde passar.

A Luísa ficou parada um momento, de saco vazio na mão, a olhar para o andaime como se ele lhe devesse explicações. Olhou para o relógio. Sem alternativa, deu meia volta e teve de regressar pelo caminho antigo.

Quando se aproximou daquela esquina, sentiu um aperto no peito. Uma inquietação estranha, quase familiar, que não conseguia explicar. A respiração ficou mais curta. Os ombros subiram um bocadinho, sozinhos, como sobem quando se entra num sítio frio. Tinha a sensação absurda de que alguma coisa a esperava ali à frente, e não sabia o quê.

Pensou em voltar para trás. Pensou que chegava atrasada. Pensou, por um segundo, que estava a ser ridícula, e mesmo assim o corpo não acreditava nela.

Abrandou o passo. Olhou à sua volta.

A rua era mais bonita do que se lembrava. Ou talvez nunca a tivesse visto bem. Havia uma roupa estendida numa varanda, a pingar devagar. Havia um gato em cima de um carro, de olhos fechados ao sol. E, a meio da rua, onde antes existia um portão, estavam agora flores amarelas. Muitas. Em baldes, em vasos, em molhos atados com ráfia.

Uma senhora de avental, já com alguma idade, regava-as delicadamente com um regador de lata. Fazia-o sem pressa, vaso a vaso, como se cada um tivesse o seu tempo. Ao vê-la parada no passeio, levantou os olhos e ofereceu-lhe um sorriso.

Bom dia, disse a senhora. Hoje estão bonitas, as mimosas.

O que já não existia

A Luísa ficou parada por instantes. Olhou para as flores. Sentiu o calor do sol no rosto, o cheiro da terra molhada, o peso do saco vazio na mão. O aperto no peito ainda estava lá, mas já mais leve, como uma onda que recua. E, de repente, recordou-se.

O cão. O susto. A manhã distante.

Lembrou-se do cabelo molhado e do casaco por abotoar. Da buzina. Das mãos frias o dia inteiro. Lembrou-se de uma rapariga de vinte e poucos anos que tinha medo de quase tudo e que, para se proteger, aprendera a dar voltas. Teve vontade de lhe pôr a mão no ombro e dizer-lhe que tinha feito bem. Naquele dia, tinha feito bem.

Sorriu para si própria.

Comprou um ramo pequeno de mimosas. A senhora embrulhou-o em papel pardo e perguntou-lhe se morava perto. Moro aqui ao lado, respondeu a Luísa, e achou estranho dizê-lo, como se só agora fosse verdade.

Seguiu pela rua estreita até ao fim. A paragem ficava a dois minutos. O autocarro ainda não tinha chegado. Sentou-se no banco com as flores ao colo e deu por si a pensar, sem tristeza, em quantas manhãs tinha andado à volta do quarteirão.

Durante tantos anos, tinha continuado a fugir de algo que já não existia.

E enquanto o autocarro se aproximava, ao fundo da avenida, ela perguntou-se baixinho, quase a rir, se haveria outras esquinas assim. Outros portões que tinham desaparecido sem ela dar por isso. Não sabia a resposta. Mas, pela primeira vez em muito tempo, teve curiosidade de ir ver.

No dia seguinte a padaria continuava em obras. Na semana seguinte reabriu, com uma montra nova. Às vezes a Luísa ainda ia lá buscar o pão de mistura. Outras vezes descia a rua estreita e parava um bocadinho à frente das flores. Ela própria não saberia dizer, em cada manhã, porque escolhia um caminho ou o outro. Só sabia que agora escolhia.

Uma pergunta para ti

Será que ainda existe um cão atrás daquele portão?

Hoje, quando deres por ti a evitar alguma coisa, uma conversa, uma decisão ou até um sentimento, para por um instante e repara no desvio que estás a fazer. Pergunta-te quando é que esse desvio começou. Não precisas de mudar de caminho hoje. Basta olhares novamente para a esquina.

Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

Continua a explorar.

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