Uma pedra por dia
Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

O senhor Albano vivia numa encosta seca da Serra da Lousã, numa casa de xisto que tinha sido do pai e, antes disso, do avô.
Por baixo da casa corria um ribeiro. Ouvia-se de noite, sobretudo no inverno, um barulho de água a descer apressada entre as pedras. Mas o ribeiro corria todo para o lado errado. Descia pela rocha, contornava o terreno dele sem lhe tocar e perdia-se numa ravina cheia de silvas. O socalco onde o avô tinha tido batatas e couves estava amarelo e duro, rachado no verão, com uma oliveira velha que dava poucas azeitonas e muita sombra.
Ele passou anos a olhar para aquilo. Do alpendre, ao fim da tarde, com um copo de vinho na mão, fazia contas. Um dia, quando a reforma chegasse, quando vendesse o pinhal de baixo, quando o filho mandasse algum dinheiro de França, havia de pagar a alguém para abrir um canal como deve ser, com tubos e cimento e uma comporta de ferro.
Esse dia nunca chegava. A reforma chegou e era pequena. O pinhal ardeu num agosto. O filho telefonava no Natal e pelos anos e falava mais da mulher e dos miúdos do que de dinheiro. E o senhor Albano, sem dar muito por isso, foi deixando de olhar para o socalco. Passava por ele como se passa por uma conversa que se adiou demasiadas vezes.
A primeira pedra
Numa manhã de março, com nevoeiro baixo, desceu ao ribeiro para encher dois garrafões. Tropeçou numa pedra do caminho e quase caiu. Praguejou, agachou-se e apanhou-a para a atirar para o mato.
Era uma pedra lisa, cinzenta, do tamanho de um pão pequeno. Fria e um pouco húmida. Ficou com ela na mão mais tempo do que era preciso. E, em vez de a atirar, sem saber bem porquê, pousou-a dentro do ribeiro, um pouco mais à esquerda, junto a outras que lá estavam.
A água contornou-a. Um fio pequeno, quase nada, da grossura de um dedo, desviou-se para o lado do terreno dele e escorreu meio metro antes de se perder na terra.
Ele ficou a ver. Os garrafões esperaram. Lembrou-se do avô, que dizia que a água tem memória curta e paciência comprida. Nunca tinha percebido o que aquilo queria dizer.
No dia seguinte voltou ao ribeiro e pôs outra pedra ao lado da primeira. No outro dia, outra. Não tinha plano. Não desenhou nada, não mediu nada. Descia com os garrafões, escolhia uma pedra que lhe parecesse do tamanho certo e pousava-a. Depois subia.
O que a água faz quando ninguém está a ver
Houve dias em que se esqueceu. Uma semana de gripe, com febre, em que não saiu da cama e a vizinha, a dona Lurdes, lhe trazia sopa num tacho embrulhado num pano. Quando melhorou, desceu ao ribeiro com as pernas ainda fracas e pôs uma pedra, como se não tivesse faltado a nenhum dia. Não pôs sete para compensar. Pôs uma.
Houve noites de chuva grossa em que a cheia levou duas ou três pedras e desfez o que ele tinha feito. Na primeira vez, ficou parado na margem, com o peito apertado, a olhar para o sítio vazio. Depois pensou que as pedras não tinham ido longe, estavam ali, uns metros abaixo, à espera. Foi buscá-las. Voltou a pô-las sem se zangar. E reparou que, ao desfazer o trabalho, a cheia tinha mostrado um caminho melhor, mais rente à margem.
Ao fim de um mês havia um fio de água a correr encosta abaixo, finíssimo, que de manhã brilhava ao sol como um arame. Ao fim de três meses, nasceu à volta dele uma erva tão verde que parecia pintada. A dona Lurdes, que passava todos os dias para a fonte, parou um dia junto ao muro e ficou a olhar sem dizer nada. No dia seguinte trouxe-lhe uma mão-cheia de sementes de abóbora, embrulhadas num papel de jornal.
O senhor Albano começou a acordar mais cedo. Não era uma decisão. Simplesmente, o corpo já sabia que de manhã havia uma coisa à espera dele lá em baixo. Descia o caminho com menos dores nos joelhos do que no ano anterior, ou talvez fosse só impressão. Às vezes falava sozinho enquanto escolhia a pedra. E, de vez em quando, ficava ali agachado mais tempo do que precisava, a ouvir a água mudar de som à medida que encontrava o novo caminho.
Houve também uma tarde de julho em que se sentou no muro, cansado, e pensou que aquilo era uma tolice de velho. Um fio de água não regava um socalco inteiro. Ficou ali a olhar para as mãos, cheias de terra e de calos, e quase decidiu não descer no dia seguinte. Desceu. Não sabia explicar porquê. Talvez só para ver se o fio continuava lá. Continuava, um pouco mais largo do que na véspera.
Talvez conheças esta sensação, a de uma coisa pequena que se repete até o corpo começar a contar com ela antes de ti.
As flores que ninguém semeou
Na primavera seguinte apareceram flores pequenas, amarelas e brancas, no meio da erva. Ninguém as tinha semeado. Tinham vindo com a água, ou estavam na terra à espera há anos, ele não sabia. As abóboras da dona Lurdes cresceram tanto que ele teve de lhe levar metade, num carrinho de mão.
Os vizinhos começaram a subir até lá para ver. O primo Zé, que tinha uma retroescavadora, perguntou-lhe que obra é que tinha mandado fazer. Um senhor da junta quis saber quanto é que tinha custado e se havia apoios para aquilo. O neto de alguém tirou fotografias com o telemóvel.
O senhor Albano ria-se e levava-os até ao ribeiro. Mostrava-lhes a fila de pedras, torta, desigual, com umas maiores e outras mais pequenas, algumas já cobertas de musgo.
Ninguém acreditava que tinha sido só aquilo. Pedras tão pequenas. Uma por dia. O primo Zé encolheu os ombros e disse que com a máquina fazia aquilo numa tarde. Talvez fizesse. O senhor Albano não discutiu.
Nesse Natal, quando o filho ligou de França, ele contou-lhe da água. Contou devagar, com pormenores que nem sabia que tinha guardado: o som que o ribeiro fazia agora, a cor da erva em junho, a primeira abóbora. Do outro lado houve um silêncio comprido. Depois o filho disse que talvez fosse lá no verão com os miúdos, para eles verem.
O senhor Albano desligou e ficou à janela. Lá em baixo, no escuro, ouvia-se a água a correr para o lado certo.
Na manhã seguinte desceu, como sempre, e pousou mais uma pedra. Não sabia bem para onde ia aquele fio de água a seguir, nem até onde chegaria. Mas a água parecia saber, e ele tinha deixado de ter pressa.
Uma pergunta para ti
Que pedra pequena podes pousar hoje no rio da tua vida?
Escolhe uma ação tão pequena que pareça quase ridícula, como dois minutos, uma frase ou um passo. Faz essa ação todos os dias durante sete dias, à mesma hora se conseguires. Se falhares um dia, põe só uma pedra no dia seguinte, sem compensar e sem te zangares.
Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

