O fio das tecedeiras

Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 7 min de leitura

Ilustração da história O fio das tecedeiras.

Numa aldeia do Barroso, no fundo de uma rua de granito que no inverno ficava sempre molhada, havia uma oficina onde as mulheres teciam mantas há mais de cem anos.

Era uma sala comprida, de teto baixo, com três teares de madeira escura que rangiam como barcos. Nas prateleiras, as meadas de lã esperavam por cores: o castanho das ovelhas, o verde que vinha das cascas de nogueira, um vermelho que a dona Rosa fazia com raízes e que nunca saía igual duas vezes. Cheirava a lã húmida, a fumo da lareira e a café requentado.

A Inês chegou lá em setembro, com vinte e oito anos e uma mala pequena. Tinha deixado um emprego em Braga, um apartamento partilhado e uma conversa a meio com a mãe. Dizia a quem perguntava que vinha aprender um ofício. Não dizia que vinha também para ficar longe de tudo o que lhe pedia alguma coisa.

Achou que tecer era simples. Passar o fio para um lado, passar o fio para o outro, apertar com o pente, repetir. Era rápida, tinha boas mãos e gostava de ver o trabalho a crescer. Ao fim de uma semana, já fazia tiras inteiras sozinha, enquanto as outras aprendizas ainda se enganavam na ordem dos pedais.

Mas as mantas dela saíam sempre estranhas. Apertadas num sítio, frouxas noutro, com as bordas a puxar para dentro, como se o pano tivesse vergonha de ocupar o seu espaço. Ela desmanchava, recomeçava e o defeito voltava, sempre no mesmo lugar, quase à mesma altura.

A mão por cima da mão

A dona Rosa era uma senhora pequenina, de lenço preto e olhos muito claros, que falava pouco enquanto trabalhava. Observou a Inês durante semanas sem dizer nada. Às vezes passava atrás dela, parava um segundo e seguia para o tear do fundo. A Inês sentia aquele olhar nas costas e acelerava ainda mais.

Numa tarde de outubro em que chovia de lado, a mestra puxou um banco e sentou-se ao lado dela. Não pediu licença. Pôs a mão por cima da mão da Inês, uma mão seca e quente, com os nós dos dedos grossos, e deixou-a ali enquanto a lançadeira atravessava os fios.

Disse-lhe que ela tecia como quem tem pressa de acabar. Que cada fio que atravessa a teia tem de respeitar os fios que já lá estão. Se puxa demais, aperta os outros e o pano encolhe. Se puxa de menos, fica solto, faz barriga e não segura nada.

A Inês ficou calada. A chuva batia na janela e a lareira estalava. E, sem saber bem porquê, vieram-lhe à memória coisas que não tinham nada a ver com lã.

Lembrou-se da mãe, ao telefone, a perguntar se ela comia bem, e da forma como desligava sempre um pouco antes de a conversa acabar. Lembrou-se do Tiago, com quem tinha vivido três anos, e das noites em que lhe explicava, com uma paciência que era quase uma corda, o que ele devia sentir. Lembrou-se da Marta, a amiga da escola, a quem deixou de responder numa primavera, sem zanga nenhuma, só porque responder dava trabalho.

Puxava demais, umas vezes. Desaparecia, outras. E nunca tinha reparado que era o mesmo movimento visto dos dois lados.

A dona Rosa não lhe perguntou em que estava a pensar. Continuou com a mão pousada, a acompanhar o fio. Ao fim de um bocado, disse apenas que o tear não se aprende com os olhos.

A tensão na ponta dos dedos

Nessa tarde teceram juntas até escurecer. A mestra ia contando histórias da aldeia: a vizinha que casou duas vezes com o mesmo homem, o padre que tocava concertina às escondidas, o inverno de setenta e três em que a neve tapou as portas e as famílias passavam as refeições de casa em casa por cima dos muros. A Inês ria-se e esquecia-se de acelerar.

Foi assim, quase sem dar por isso, que começou a sentir o fio de outra maneira. Havia um ponto em que a lã cedia e ainda segurava. Um ponto que não estava em lado nenhum escrito e que só se encontrava com o corpo, na ponta dos dedos, no pulso que deixava de estar rígido, nos ombros que desciam um pouco. E talvez, enquanto lês isto, possas reparar em como as tuas próprias mãos sabem coisas que tu ainda não disseste por palavras.

Havia uma frase que a dona Rosa repetia, sempre sem olhar para ninguém, como quem fala para a lã: uma manta forte não vem de um fio forte. Vem de muitos fios que sabem estar juntos.

Nas semanas seguintes, a Inês errou muitas vezes. Houve dias em que voltou a puxar demais, por cansaço ou por teimosia, e houve outros em que deixou o fio tão solto que a mestra tirou a lançadeira e lhe disse para ir dar uma volta à aldeia. Ela ia. Passava pelo forno comunitário, pela fonte, pelo café onde os velhos jogavam à sueca. Às vezes cumprimentava alguém. Às vezes não.

Numa dessas voltas, sentou-se no muro da igreja e ligou à mãe. Não tinha nada de especial para dizer. Deixou a mãe falar dos tomates que não amadureciam, da prima que ia ser avó, de uma dor no joelho. Não desligou antes do fim. No fim, foi a mãe que ficou em silêncio uns segundos e perguntou-lhe se estava tudo bem. A Inês disse que sim, e pela primeira vez em muito tempo era quase verdade.

Lisa, quente e inteira

Ao fim de um mês e meio, terminou uma manta que não puxava para dentro. Era simples, verde-escura, com um único fio dourado a atravessá-la de ponta a ponta. Não tinha desenho nenhum. A dona Rosa disse que não precisava.

Quando a tirou do tear e a estendeu na mesa grande, a Inês passou a mão por cima dela devagar, da esquerda para a direita, como quem acaricia o dorso de um animal. Estava lisa, quente e inteira. Os fios encostavam-se uns aos outros sem se apertarem. O dourado não brilhava mais do que o verde. Estava lá, a fazer parte.

A mestra veio ver. Pegou numa ponta, esticou-a contra a luz da janela, dobrou-a e voltou a desdobrá-la. Não fez elogios. Disse só que aquela manta ia durar.

Nessa noite, no quarto alugado por cima da mercearia, a Inês escreveu uma mensagem à Marta. Apagou-a duas vezes. À terceira, mandou-a assim mesmo, curta e um pouco desajeitada, a dizer que tinha saudades e que não sabia bem porque tinha deixado de responder. Pousou o telemóvel virado para baixo e ficou a ouvir a chuva.

Não sabia se a Marta ia responder. Não sabia se o Tiago, um dia, ia perceber o que ela agora começava a perceber. Não sabia se a mãe ia notar a diferença na próxima chamada.

Sabia que tinha nas mãos uma coisa nova, uma espécie de medida que não se explica. E pensou, já meio a dormir, que talvez também se pudesse aprender a estar com os outros desta maneira. Um fio de cada vez, a sentir onde o pano cede e onde segura.

Uma pergunta para ti

Nas tuas relações, onde costumas puxar o fio demais, e onde o deixas solto?

Escolhe uma relação importante para ti e repara, durante uma conversa, se estás a puxar ou a desaparecer. Se costumas puxar, abranda e deixa a outra pessoa terminar o que está a dizer. Se costumas desaparecer, fica até ao fim da conversa e diz uma coisa que sentes.

Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

Continua a explorar.

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