O mapa sem estradas
Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 6 min de leitura

Quando o Tomás fez trinta anos, o avô deu-lhe um mapa.
Foi num domingo de setembro, na casa de Arouca, depois do almoço, quando os outros já tinham ido para o quintal e na sala só ficavam o cheiro do cabrito e o tique-taque do relógio de pé. O avô Henrique chamou-o com um aceno, tirou do bolso do casaco um envelope amarelado e pousou-o em cima da toalha, entre as migalhas, sem dizer nada.
Lá dentro estava uma folha dobrada em quatro. Papel grosso, feito à mão, com as bordas a desfazerem-se um pouco. Tinha uma linha de costa desenhada a tinta castanha, uns traços que podiam ser montes e, no meio de um espaço enorme e vazio, uma pequena estrela. Mais nada. Nem estradas, nem nomes, nem setas.
O Tomás ficou a olhar para aquilo sem perceber. Riu-se, meio sem jeito, e perguntou ao avô onde ficava a estrela e como se chegava lá.
O avô encolheu os ombros, com aquela lentidão de quem já não tem pressa de convencer ninguém. Disse que a estrela era o sítio onde ele se ia sentir em casa. Quanto ao caminho, tinha de ser ele a desenhá-lo.
Depois levantou-se, apoiado à bengala, e foi para o quintal ver os netos mais novos a apanhar castanhas.
Os mapas dos outros
Durante muito tempo, o mapa ficou numa gaveta da cómoda, no apartamento do Porto, por baixo das garantias dos eletrodomésticos e de um molho de chaves que já não abriam nada.
O Tomás tinha outros mapas, mais úteis. Mapas com estradas largas e bem marcadas, que outras pessoas já tinham percorrido antes dele e que tinham deixado placas pelo caminho. O curso de Gestão, porque dava saída. O estágio no banco, porque o pai de um amigo conhecia alguém. O emprego numa consultora com escritório na Boavista. A casa em Matosinhos, porque era perto do mar e era onde toda a gente queria viver. A Sofia, que era a namorada certa, inteligente e bonita, e com quem nunca discutia.
Seguia esses mapas bem. Era organizado, cumpria prazos, chegava sempre onde eles diziam que se chegava. Os pais tinham orgulho nele. Nos jantares de família, a tia Lurdes dizia que o Tomás tinha a vida arrumada.
O estranho era que, quando lá chegava, nunca se sentia em casa.
Não era tristeza. Não sabia bem o que era. Era como entrar num quarto de hotel muito bom e ficar à espera de que alguém dissesse que podia desfazer a mala. Ia ao ginásio às sete, trabalhava até às oito, via uma série com a Sofia no sofá e, às vezes, a meio de um episódio, dava por si a olhar para a parede branca do lado da televisão sem conseguir dizer em que é que estava a pensar.
Aos domingos ligava ao avô. O avô perguntava sempre a mesma coisa, no fim da conversa, quase em jeito de despedida: e o mapa? O Tomás ria-se e dizia que estava guardado. O avô dizia que estava bem e desligava.
Debaixo dos pés
O avô morreu em fevereiro, numa semana de chuva. No funeral, em Arouca, o Tomás não chorou. Ficou de pé ao lado da mãe, de mãos nos bolsos, a sentir a água a entrar-lhe pelos sapatos e a pensar, sem razão nenhuma, no tique-taque do relógio de pé.
Duas noites depois, no Porto, não conseguia dormir. A Sofia dormia virada para a parede. Ele levantou-se, foi à sala às escuras, e deu por si a abrir a gaveta da cómoda sem ter decidido abri-la.
Desdobrou o mapa em cima da mesa, debaixo do candeeiro. O papel tinha um cheiro a madeira e a armário. Passou os dedos pela linha de costa, pela estrela. E reparou numa coisa que nunca tinha visto. Junto à estrela, a lápis muito leve, quase apagado, numa letra inclinada que ele conhecia dos postais de aniversário, o avô tinha escrito: os caminhos verdadeiros só aparecem debaixo dos pés.
Ficou muito tempo a olhar para aquela frase. Sentiu qualquer coisa a soltar-se no peito, devagar, como um nó de sapato que se desfaz sozinho. Foi aí que chorou, sozinho na sala, sem barulho, com a mão aberta em cima do papel.
No dia seguinte, o Tomás fez uma coisa pequena. Ligou ao Duarte, um amigo da faculdade com quem tinha deixado de falar há seis anos por causa de uma discussão que já nem lembrava bem. O Duarte atendeu ao terceiro toque e ficaram os dois calados um segundo antes de se rirem.
À noite, chegou a casa, tirou um lápis da gaveta da cozinha e desenhou uma linha curta no mapa, a sair da margem de baixo.
Na semana a seguir, inscreveu-se nas aulas de carpintaria que via anunciadas há três anos numa oficina em Campanhã e para as quais nunca tinha tido tempo. Outra linha. Um mês depois, disse que não a uma promoção que o obrigava a mudar-se para Lisboa e que toda a gente achava boa. O chefe ficou espantado. A mãe ficou preocupada. Ele ficou acordado nessa noite, com medo, e mesmo assim desenhou a linha.
Nem todas as linhas iam na direção da estrela. Houve uma viagem que planeou e que o deixou vazio. Houve uma conversa com a Sofia que correu mal, e outra que correu bem, e no fim dessa segunda conversa perceberam os dois, com uma tristeza calma, que estavam a viver em mapas diferentes. Quando uma linha se desviava, ele apagava-a com a borracha, sem drama, e tentava outra. O papel começou a ficar cinzento de tantas emendas.
A estrada torta
Passou um ano. O Tomás vive agora numa casa pequena, mais acima, perto de Arouca, com uma bancada de trabalho na garagem e serradura nas mangas das camisolas. Ainda trabalha com números, três dias por semana, a partir de casa. Nos outros dias faz mesas. Ainda não sabe se isso vai dar para viver. Às vezes acorda com essa dúvida sentada na beira da cama.
O mapa está pregado na parede da garagem, por cima da bancada. Já não está vazio. Tem uma estrada torta, cheia de emendas, de idas e voltas, de pontas que acabam em nada. Quem a visse de fora havia de achar que quem a desenhou não sabia para onde ia. Só ele sabe lê-la.
E talvez seja assim com todos os mapas que valem alguma coisa: só fazem sentido a quem os anda.
Ainda não chegou à estrela. Há dias em que lhe parece mais longe do que no princípio.
Mas, à tarde, quando a luz entra de lado pela porta da garagem e ele passa a mão pela madeira acabada de lixar, sente nos pés uma coisa parecida com chão. E tu, se alguma vez sentiste isso, sabes como é difícil explicá-lo a quem nunca saiu da estrada larga.
Pela primeira vez, sente-se a caminho de casa.
Uma pergunta para ti
Se o teu mapa só tivesse uma estrela, que primeira linha desenhavas esta semana?
Desenha numa folha uma estrela e escreve ao lado o que significaria, para ti, sentires-te em casa na tua vida. Depois desenha uma linha curta a sair da margem da folha e escreve nela uma ação que possas fazer até domingo. Guarda a folha num sítio onde a voltes a ver.
Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

