O violino no sótão

Nuno Cortez · Histórias que Abrem Portas · 6 min de leitura

Ilustração da história O violino no sótão.

A Helena encontrou o violino num sábado de dezembro, quando subiu ao sótão à procura das caixas de Natal.

A casa era em Coimbra, na Rua da Matemática, e tinha sido dos pais. Ela voltara para lá depois do divórcio, com os dois filhos já crescidos e uma sensação de que a vida se tinha arrumado sozinha enquanto ela estava a olhar para outro lado. O sótão era baixo, cheirava a pó, a madeira velha e a naftalina. A luz entrava por uma janela redonda virada a poente e cortava o escuro numa faixa onde o pó dançava devagar.

As caixas de Natal estavam onde sempre tinham estado. Mas, ao puxar uma delas, a Helena viu um cobertor de lã escocesa, dobrado sobre qualquer coisa com uma forma que o corpo dela reconheceu antes da mente.

O estojo

Estava encostado a uma parede, dentro de um estojo de couro gasto, debaixo de um cobertor que já ninguém usava. Ela demorou alguns segundos a perceber o que era. Depois sentou-se no chão de madeira, devagar, como quem se senta ao lado de alguém que não vê há muito tempo.

Ficou um bocado sem lhe tocar. Ouvia lá em baixo o rádio da cozinha, que tinha deixado ligado, e a voz distante de um locutor a falar do trânsito na ponte. Ouvia também o coração, um pouco mais rápido do que a subida da escada justificava.

Tinha tocado dos oito aos dezassete anos. Lembrava-se do cheiro da resina, do frio do queixo encostado à madeira, das tardes em que tocava sozinha no quarto com a porta fechada e o mundo inteiro ficava do lado de fora. Lembrava-se da professora Graça, uma senhora alta e magra que lhe batia levemente com o lápis no pulso quando ele descaía e que, uma vez, no fim de uma sonata, ficou calada tanto tempo que a Helena pensou que tinha tocado mal. Depois a professora disse só: tu ouves, menina. Isso não se ensina.

Lembrava-se também do pai, à porta do quarto, a dizer que a música era bonita mas não dava de comer. Não o disse com maldade. Era um homem que tinha passado fome em pequeno e que olhava para o futuro dos filhos como quem olha para o céu antes das colheitas.

Depois veio o curso de Direito, o trabalho no escritório, o casamento, a casa, os filhos, as reuniões de pais, os jantares de domingo, as contas. Ninguém lhe disse para parar. Simplesmente, um dia já não havia tempo. E, a seguir, já não havia vontade. Ou era isso que ela pensava.

Às vezes, nos anos seguintes, ia a um concerto e saía com um peso no peito que atribuía ao cansaço. Às vezes, num restaurante, ouvia um violino na rádio e mudava de assunto sem saber porquê. Os filhos nunca a tinham ouvido tocar. O marido, a certa altura, esqueceu-se de que ela algum dia tocara.

As mãos lembram-se

Abriu o estojo. Os fechos de latão resistiram e depois cederam com um estalo seco. Por dentro, o veludo azul tinha desbotado e cheirava a fechado. As cordas estavam frouxas, uma delas partida, enrolada sobre si mesma como uma gavinha. O arco tinha perdido metade das crinas. No compartimento pequeno ainda estava o pedaço de resina, rachado, e um papel dobrado com uma escala escrita pela mão da professora Graça.

Mas a madeira continuava inteira, com aquele brilho cor de mel que ela conhecia de cor.

Pegou nele com cuidado. As mãos lembraram-se antes dela. O braço esquerdo subiu sozinho, o queixo procurou o lugar certo, os dedos pousaram nas cordas como se nunca de lá tivessem saído. Havia uma pequena marca gasta no verniz, junto ao queixo, que ela própria tinha feito ao longo de nove anos. Encaixou ali como uma chave numa fechadura.

Ficou assim, imóvel, com o violino ao ombro e o arco suspenso, a ouvir o silêncio. E talvez, enquanto lês isto, possas lembrar-te também de uma coisa que as tuas mãos sabiam fazer e que esperou por ti sem se queixar.

Tocou uma nota. Saiu desafinada, rouca, quase um gemido.

A Helena riu-se, um riso curto, meio envergonhado, como se alguém estivesse a ver. E, mesmo assim, alguma coisa dentro dela respondeu. Uma coisa antiga, quente, que não tinha nome. Como uma casa onde se acende uma luz depois de muitos anos às escuras.

Afinou a corda de sol devagar, de ouvido, girando a cravelha. Tocou outra vez. Já não era um gemido. Era uma nota inteira, frágil, que ficou a tremer no ar do sótão.

A janela redonda

Ficou ali um bom bocado, no chão, com o violino ao colo e o sol a entrar pela janela redonda. A faixa de luz foi andando pelo soalho, devagar, até lhe chegar aos joelhos. Lá em baixo, o rádio passou do trânsito para uma música qualquer. Ela não se levantou.

Pensou na rapariga de dezassete anos que tinha fechado aquele estojo. Não se lembrava de o ter feito. Não houve despedida. Foi uma arrumação entre tantos outros, numa tarde de que já não guardava nada. E no entanto ali estava, inteira, a coisa que ela tinha arrumado.

Ouviu a porta da rua. Era o filho mais novo, o Pedro, que vinha almoçar. Chamou por ela e a Helena respondeu que estava no sótão. Ele subiu a escada estreita, curvou-se debaixo das traves e ficou parado a olhar para a mãe sentada no chão com um violino nos braços.

Não sabia que tocavas, disse ele.

Nem eu, respondeu ela. E depois ficaram os dois calados, ele de pé, ela sentada, com uma vontade parecida de rir.

Não sabia se ia voltar a tocar. Não sabia se ainda era capaz. Sabia que as cordas custavam dinheiro, que o arco tinha de ir a um luthier, que os dedos iam doer durante semanas. Sabia que ia ter vergonha de tocar mal.

Mas sabia uma coisa que não sabia de manhã: aquela parte dela não tinha morrido. Tinha estado só à espera, debaixo de um cobertor, que alguém subisse ao sótão.

As caixas de Natal desceram nessa tarde. O violino também. Ficou em cima do piano da sala, ainda com a corda partida, ao lado do presépio. A Helena passava por ele várias vezes por dia e, de cada vez, abrandava um pouco o passo.

Na segunda-feira, ao sair do escritório, deu uma volta maior do que o costume e passou pela Baixa. Havia uma loja de instrumentos numa travessa, com uma montra empoeirada onde ela nunca tinha reparado. Ficou à porta um bocado, com o saco do computador ao ombro, a ver um homem de óculos a colar o tampo de uma guitarra. Não entrou. Mas apontou o horário num papel, dobrou-o e guardou-o no bolso do casaco, onde ficou, nos dias seguintes, a lembrar-lhe que estava lá.

Uma pergunta para ti

O que guardaste no sótão da tua vida, e que continua inteiro à tua espera?

Lembra-te de uma coisa que fazias em criança ou na adolescência e em que perdias a noção do tempo. Esta semana, dá-lhe dez minutos, sem objetivo e sem tentares fazer bem. Repara no que o teu corpo sente nesses minutos.

Podes responder num caderno teu. Este site não recolhe a tua resposta.

Continua a explorar.

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